“PMEs precisam planejar e pesquisar bem as opções de crédito”, diz a diretora do SPC

Em entrevista exclusiva à WEEL, Marcela Kawati indica formas de o empresário se preparar para buscar as melhores condições de crédito em 2019.

Os empresários brasileiros estão otimistas frente às perspectivas econômicas para 2019 – e portanto, é hora de buscar crédito para crescer. Essa percepção foi revelada na pesquisa “Expectativas para a economia e para a empresa”, realizada pelo Sebrae entre agosto e outubro de 2018, com a participação de mais de 5,8 mil empreendedores brasileiros.

No entanto, é necessário preparar-se para fazê-lo de forma correta e planejada, para que o crédito traga os benefícios buscados pelo empresário. Quem faz esse alerta é Marcela Kawati, a economista-chefe do SPC Brasil, um dos maiores serviços de proteção ao crédito do país, em entrevista exclusiva à WEEL.

Em primeiro lugar, a economista deixa claro que a equação correta para obtenção de crédito é a preparação da empresa, no tocante a controles e documentações, combinada à pesquisa aprofundada da melhor opção. Seja por despreparo, seja por rotina, empresários deixam de lado algumas ótimas opções para fortalecer o fluxo de caixa, tais como a antecipação de recebíveis, e recorrem a alternativas populares e rotineiras, mas reconhecidamente perigosas, como cartão de crédito ou cheque especial.

Por isso, Marcela defende que o otimismo empresarial nesse momento de retomada só trará resultados caso os empresários assumam uma postura mais profissional e pró-ativa na hora de negociar crédito, sem contar tão somente com mudanças oriundas de definições do governo. “O empreendedor precisa investir em sua própria formação como gestor e no gerenciamento eficiente de seu negócio. Isso, por si só, lhe garantirá mais condições de negociar empréstimos no mercado”, indica Marcela.

A seguir, confira a entrevista exclusiva na qual a executiva trata sobre crédito, garantias, planejamento e crescimento.

WEEL: É assunto rotineiro no Brasil a dificuldade e o custo do crédito para PMEs. Em sua visão, por que isso acontece?

Marcela Kawauti: Nem todas as opção são caras. Mas algumas de fato são, e por vários motivos. Para começar, há a questão das garantias. Quando o banco concede empréstimo para uma companhia de grande porte, ele conta com mais garantias de que a dívida será honrada, pelo próprio tamanho da empresa. No caso da PME, isso não acontece. Importante citar também a falta de preparo por parte da própria PME. É comum que o pequeno e médio empresário conheça profundamente a atividade-fim da empresa, mas desconheça boas práticas de gestão. Isso faz com que ele cometa erros tais como tomar empréstimos ruins e caros, por exemplo cartão de crédito e cheque especial, de forma apressada, sem pesquisar, só para resolver logo um problema e voltar o mais rápido possível para fazer aquilo que “gosta”. Este comportamento tem um preço.

Há ainda a questão da burocracia: as empresas menores às vezes não têm a formalização necessária para obterem acesso aos empréstimos mais baratos. Algumas até mesmo vão a mercado tomar crédito sem estar com toda a papelada legal em dia – e a lista de documentos exigidos ainda é, em grande parte, imensa. Muitas vezes acabam aceitando condições  bastante desvantajosas. Sabe-se que documentação em dia e juros baixos estão diretamente ligados.

W: Qual sua opinião sobre Fintechs?

MK: Fintechs são uma ótima solução para aumentar o acesso ao crédito na economia. O pequeno empresário, no entanto, precisa atentar com relação a qual ele irá recorrer. O ideal é que ele opte por empresas que já estejam estabelecidas no mercado – e existem várias (entenda aqui como escolher plataformas seguras de crédito). É também importante ler bem o contrato de adesão na hora de contrair um empréstimo online, pesar o custo do empréstimo que está sendo oferecido. Mas, de fato, quase sempre o crédito sai bem mais em conta em Fintechs.

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W: Os pequenos e médios empresários brasileiros cometem erros na hora de pedir crédito?

MK: Sim, e são decorrentes da falta de profissionalização. Muitas vezes, mistura-se vida pessoal com profissional; outras, o empreendedor não apresenta um plano claro sobre que tipo de crédito está buscando e não pesquisa opções. Há muitos que não conseguem apresentar a documentação necessária.

W: Realmente, fala-se muito sobre o erro de misturar finanças pessoais com empresariais na hora de lidar com crédito.

MK: Vemos muitos empresários que usam o caixa da empresa para pagar despesas pessoais, o que é um enorme erro. O contrário também acontece. Pessoa física é uma coisa, pessoa jurídica é outra. O dinheiro de ambas não deve se misturar. Por um lado, pessoas jurídicas têm em média taxas menores em empréstimos que as pessoas físicas – mas, mesmo assim, o empreendedor precisa manter as duas economias em separado. Por outro lado, seu salário deve ser fixo e determinado. E ele não deve pegar um pouco do caixa hoje, um pouco amanhã… isso é um dreno que prejudica a PME.

Outra questão importante para o empresário da PME: ele precisa o tempo inteiro estudar seu público-alvo, impostos, gestão de funcionários e de estoques etc. Ele precisa profissionalizar a administração, o dia-a-dia da empresa. Isto é muito importante no momento do crédito e também para que a empresa possa ser “pensada” no longo prazo.

W: Ou seja, há crédito disponível, mas este não chega ao pequeno e médio empresário.

MK: Não diria que há crédito sobrando. Claro que não. No entanto, há linhas de crédito mais específicas as quais o pequeno empresário às vezes não conhece – e por isso mesmo acaba tomando empréstimos mais caros. Importante lembrar também que há regiões do país com programas de microcrédito fortes e que podem ser interessantes para o pequeno empresário. Outra possibilidade: cada Estado tem se próprio órgão de fomento, que pode fornecer crédito mais barato. Usando essas opções, o pequeno empresário não fica dependendo dos bancos. Mas, de novo: ele precisa estar organizado para isso, e também bem-informado.

W: Nesses locais citados, o empresário pode receber crédito com menos preocupação?

MK: Não. O empresário precisa, em qualquer situação, estudar muito o assunto e entender se o empréstimo que pretende fazer é de fato necessário. Ele precisa ter clareza de objetivos. O crédito, às vezes, pode até estar fácil – mas será a melhor saída? Às vezes uma PME pega empréstimo para formar estoque, por exemplo. Ora, estoque é, por definição, capital imobilizado, dinheiro parado. Será que vale a pena pegar emprestado para isso? Pode até valer, mas tem de estudar cada caso.

W: Os negócios morrem precocemente no Brasil por falta de crédito ou não recebem crédito por morrerem precocemente? O que vem primeiro nesse caso?

MK: O índice de falências de PMEs entre nós é de fato alta, mas não é por falta nem por excesso de crédito que isso ocorre. É um tanto mais amplo que isso: há falta, aqui, de um ambiente macroeconômico propício à perenidade destas empresas. São vários fatores, alguns eu já comentei: pouca profissionalização na gestão das PMEs, ausência de planejamento de longo prazo, dificuldades inerentes à economia brasileira, que é complicada… não há um único motivo. No entanto, concordo que, por conta desta alta mortalidade, a concessão de crédito às pequenas e médias empresas se torna ainda mais difícil. É fácil entender: se eu não sei se sua empresa vai fechar as portas amanhã eu não posso te emprestar dinheiro, ou só posso te emprestar com juros muito elevados. É o que ocorre no Brasil.

W: Por fim, o que de fato permite ao pequeno e médio empresário “chegar lá” e tomar um empréstimo? Quais são suas principais dicas?

MK: Eu responderia enfocando quatro aspectos. Primeiro, é preciso profissionalizar a gestão da empresa. Isto aumenta muito as chances de conseguir juros menores. Tomar crédito só quando realmente for necessário é outra boa prática. Segundo, planejar a empresa no longo prazo. Isso é vital, mas às vezes o pequeno empresário brasileiro não se dá conta disto, é muito imediatista. Planejar confere previsibilidade às finanças da PME, e com isto o empreendedor vai conseguir negociar melhores condições na hora de captar recursos. Terceiro: fundamental formalizar as PMEs. Manter os documentos da companhia em ordem não é luxo, é necessidade. Empresas informais não conseguem dinheiro; se conseguem, pagam muito caro por ele. Quarto: explorar alternativas. Aqui entram as fintechs – a PME não deve ir direto e somente ao banco. Tem de pesquisar exaustivamente qual a instituição que vai fornecer dinheiro ao menor custo – ou seja, com menos juros. Não é impossível. Procurando, ele acha.