O que vem primeiro: concentração
bancária ou juros altos?

O título deste texto traz uma das perguntas
mais recorrentes entre empresários e financistas do mercado nacional, e sua
resposta, obviamente, varia de acordo com os interesses e a percepção de cada um.
Antes de você formular a sua própria opinião, apresentamos rapidamente os
“ingredientes” dessa receita.

– Em 2018, 80% de todas as operações de
crédito estiveram concentradas em cinco bancos: Itaú, Bradesco, Santander,
Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF). Segundo o Banco Central,
a concentração não ocorreu apenas no Brasil – teria sido um reflexo, em todo o
mundo, da crise financeira mundial de 2008, da qual resultaram inúmeras fusões
e aquisições realizadas na tentativa de evitar crises sistêmicas.

– No tocante ao spread bancário, o Brasil só perde para Madagascar, de acordo
com os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI).

– O novo presidente do Banco Central, Roberto
Campos Neto, comentou recentemente que o “problema maior” dos juros altos é a
inadimplência: “De cada R$ 1 emprestado, recupera-se R$ 0,13”. A inadimplência
representava 38,27% do spread no Indicador de Custo de Crédito (ICC) em 2017, de
acordo com o Relatório de Economia Bancária (REB) publicado pelo Banco Central.

– Os quatros maiores bancos do país com ações
listadas na Bolsa (Banco do Brasil, Bradesco, Itaú Unibanco e Santander)
lucraram, juntos, R$ 69 bilhões no ano passado, maior valor da história,
segundo a Economatica, empresa especializada no fornecimento de dados
financeiros. Há vozes do mercado que atribuam os juros altos à ganância
dessas instituições.

– O Brasil entrou há dois anos na lista dos países
com os sistemas bancários mais concentrados do mundo, que incluem Austrália,
Canadá, França, Holanda e Suécia, de acordo com  dados do Banco de Compensações Internacionais
(BIS).

E assim, embora há um ano o Brasil venha
mantendo sua taxa básica de juros (Selic) em 6,5% ao ano, os empresários brasileiros
ainda sofrem na hora de buscar ajuda financeira para crescer. Especialmente as
pequenas e médias empresas, que não se enquadram em nenhum dos públicos-alvo
das grandes instituições bancárias nacionais (Banco do Brasil é mais voltado ao
agronegócio; Caixa está mais ligada a crédito imobiliário etc.)

Diversidade e luz no fim do túnel

Este é o contexto no qual surgiram as Fintechs
que, segundo análises de mercado, devem colaborar com para a redução da concentração bancária. Esse resultado, segundo analistas, há de ser
sentido já nos próximos anos.

Paulo Solmucci é presidente da Associação
Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e diretor da União Nacional de
Entidades do Comércio e Serviços (Unecs). Ele é, há anos, um dos personagens centrais
da batalha contra a concentração bancária no país.

“Tomemos o exemplo de uma das mais fortes
economias mundiais: os Estados Unidos. Ali, não são permitidas a concentração
bancária e a verticalização, as mesmas que fazem com que o Brasil tenha taxas
recordes de juros. Está claro que é necessário haver mais ‘players’ e mais
concorrência em benefício do consumidor”, afirma.

Ele lembra que, na gestão do ex-presidente
Fernando Henrique Cardoso, houve um esforço para aumentar a concorrência com a
entrada de bancos internacionais. “Infelizmente, eles não tiveram sucesso no
Brasil”, lamenta Solmucci. De fato, foram muitas as instituições que já
tentaram fincar os pés aqui, como BBVA, HSBC, ABN Amro Bank, Bank of Boston,
Caixa Geral de Depósitos. Apenas o Santander conseguiu se firmar em solo
nacional.

Com o surgimento e a consolidação das Fintechs
no Brasil, por outro lado, uma outra narrativa está sendo construída.

O que nos mostra o sucesso das Fintechs?

O economista-sênior da Associação Comercial de
São Paulo (ACSP) Ulisses Ruiz de Gamboa é um dos entusiastas das Fintechs, as
quais, segundo ele, vêm resgatando o empreendedor brasileiro do inferno da
escassez de crédito e do fomento mercantil.

“O surgimento das Fintechs no Brasil é um fator
positivo, pois aumenta a concorrência no setor financeiro, permitindo que tanto
os juros como as taxas cobradas passem por um processo de redução”, afirma ele.
Gamboa conta que a ACSP já vem, inclusive, recebendo relatos constantes de PMEs
nacionais que estão utilizando, com sucesso, o serviço de Fintechs.

E isso não está acontecendo apenas no Brasil.
Também na Europa, nos EUA, em Israel, na China e demais países asiáticos as Fintechs
têm ocupado espaço, trazendo serviços mais ágeis, flexíveis e mais democráticos.

Nos EUA, por exemplo, as Fintechs já
representam entre 15 e 20% do mercado de crédito.

Analogia com supermercados

Roberto Luis Troster é consultor e
ex-economista-chefe da Febraban (Federação Brasileira de Bancos). Ele usa uma
analogia para explicar seu ponto de vista. “Pensemos na variedade existentes no
varejo de alimentos. Esse segmento é combinação de pequenos (lojas de conveniência),
médios (mercados de bairro), grandes e hiper mercados. Cada um com suas
próprias características e, por isso, cada um oferecendo uma diferente vantagem
ao cliente. No caso dos serviços financeiros, é a mesma coisa: cada uma terá seu
diferencial, seu produto mais vantajoso. E valerá a pena pro público realizar
serviços financeiros com diferentes ‘fornecedores’”. Esta é a variedade que,
segundo ele, está sendo trazida pelas Fintechs.

Essas startups estão vencendo diversas etapas
para consolidar e expandir seus serviços no Brasil. Avançam tanto em áreas de
tradicional atuação bancária (a exemplo da antecipação de recebíveis digital) quanto em campos descobertos (como a
inclusão do público desbancarizado).

“Há um mercado ávido por acesso a diferentes
serviços financeiros que desde sempre atenderam prioritariamente às grandes
corporações. A tecnologia felizmente hoje permite que esse quadro seja totalmente
revisto”, comenta Simcha Neumark, CEO da WEEL,
Fintech que atua na modalidade de antecipação de recebíveis para PMEs.

A empresa, fundada há apenas quatro anos,
propõe a mesma fórmula que outra Fintech expoente no Brasil, o Nubank –
operações desburocratizadas, acessíveis e baseadas em plataformas que se
utilizam da Inteligência Artificial para atender ao público com baixo custo e
competitividade.

Em resumo, as Fintechs estão criando uma rota
alternativa na área financeira – e hoje já visualizamos a expansão dos serviços
financeiros, finalmente acessível ao grande público. O resultado dessa
revolução, espera-se, corrigirá os desvios dos juros praticados, até o momento
em que a pergunta do título não precise mais ser formulada. 

dpri