Novas práticas conquistam o universo financeiro

Entenda por que as fintechs estão ganhando força dentro do  espaço tradicionalmente ocupados pelos grandes bancos

Se te perguntassem “o que você prefere: ir ao dentista ou ao banco”, o que você responderia? Uma pesquisa feita pela consultoria norte-americana Scratch em 2015 mostrou que quase três em cada quatro entrevistados (71%) nascidos a partir de 1985 preferem ir ao dentista do que ouvir o que o banco tem a lhes oferecer. Considerando que, geralmente, ir a um profissional para tratar dos dentes está relacionado a dor e desconforto, o resultado expressa bem o quanto as instituições financeiras não estão conseguindo se modernizar e atender às demandas de seus clientes mais jovens.

A desconfiança sobre o que está sendo oferecido, o excesso de burocracia, o tempo perdido em filas  e os serviços caros têm levado cada vez mais consumidores a procurar startups – conhecidas como Fintechs – que oferecem soluções financeiras mais personalizadas, eficientes e baratas. Este não é um movimento observado apenas entre os jovens. Um outro estudo mais recente, o FinTech Adoption Index da consultoria EY (ex-Ernst & Young), mostra que as Fintechs já fazem parte da rotina de 40% dos clientes digitais no Brasil. Ou seja, de cada 10 pessoas que usam com frequência dispositivos como smartphone, tablet ou computador, quatro já contrataram algum serviço de uma startup de serviços financeiros. A facilidade em abrir, gerir e fechar as contas, e o acesso a novos produtos e serviços, são os principais motivos que levam a pessoas físicas e jurídicas a adotá-las. E só não testou ainda quem não conhece essas opções.

O que é uma Fintech?

Segundo estimativas, no mundo, atuam hoje mais de 5 mil Fintechs. Nos três últimos anos (até 2017), elas receberam cerca de 122 bilhões de dólares em investimentos, de acordo com a consultoria e auditoria KPMG, para desenvolver, aperfeiçoar e desenvolver seus produtos e serviços. No Brasil, o Radar FintechLab de novembro de 2017 estimava em quase 350 o número de fintechs em funcionamento, um crescimento expressivo ao se considerar que, no final de 2015 (primeira publicação do Radar), elas eram apenas 130. O que mais tem chamado a atenção é o maior número de startups no segmento de empréstimo. Apenas em 2017, 25 novas iniciativas foram mapeadas e hoje a área representa 17% do total de Fintechs no Brasil.

Por que as Fintechs estão roubando clientes dos bancos?

Se Fintechs como Nubank, GuiaBolso e Creditas revolucionaram a vida de pessoas físicas, imagine o que elas não estão fazendo no mundo empresarial, no qual as companhias de pequeno e médio portes mal dispunham de acesso a produtos financeiros.

No segmento de crédito a situação era ainda pior. E conseguiu cair ainda mais desde o início da atual crise financeira brasileira, em que os bancos diminuíram os empréstimos a empresas por conta do aumento do risco de falência e de inadimplência. Apenas em 2017, o saldo de financiamento bancário para empresas despencou 7%, segundo dados oficiais do Banco Central. E esse não é um problema apenas na Terra Brasilis.

Em seu último relatório sobre PMEs, o Banco Mundial estimou que 44% das PMEs que pediram dinheiro aos bancos americanos tiveram sua solicitação recusada. Na Inglaterra, onde o governo está tentando estimular o mercado de crédito para pequenos empresários, a taxa é menor, de 30%. Nos mercados emergentes, o total destinado apenas para pequenos negócios não passava de 360 bilhões de dólares, de acordo com estimativa da consultoria McKinsey. Mesmo os Estados Unidos, maior mercado de dívida e empréstimo, só 580 bilhões de dólares foram destinados ao financiamento de PMEs em 2015 (“só”, considerado que o montante de empréstimos pessoais nos EUA é três vezes superior a esse número).

Fintechs como alternativa no mercado de crédito

Além de não disponibilizarem crédito para o mercado de PMEs, há ainda outro problema com a indústria bancária. Diferentemente das Fintechs, os bancos não distinguem (e nem querem investir dinheiro para diferenciá-los entre si) o bom do mal pagador. A praxe é cobrar taxas altas para cobrir os riscos como um todo.

Empresas que sempre pagam suas contas em dia e tiveram um único mês de problemas com o capital de giro, por exemplo, acabam tendo de pagar os mesmos juros exorbitantes que aquelas que comumente quitam os débitos no prazo. Esse descaso com o cliente acaba incentivando que mais e mais pessoas e companhias migrem para Fintechs.

Fintechs de crédito, como Geru e Lendico no segmento de pessoa física e WEEL e Nexoos para empresas, investem boa parte de seu orçamento em tecnologia para aperfeiçoar os algoritmos de análise de risco e poder oferecer serviços melhores e mais personalizados e taxas mais baratas. Isso é possível porque essas startups mantêm equipes enxutas e altamente produtivas, que utilizam os canais digitais para captar e gerenciar clientes. Ou seja: não mantêm centenas de agências e milhares de funcionários no Brasil todo e ainda oferecem mais praticidade e menos burocracia na contratação de um empréstimo ou uma antecipação de recebíveis.

Nova regulamentação do Banco Central

Este ano, o Banco Central brasileiro deu mais um passo para ajudar o segmento de crédito alternativo a se desenvolver. Em abril, a instituição aprovou a regulação que permite que as Fintechs de crédito atuem sem a necessidade de intermediação de um banco. Isso deve reduzir ainda mais os custos de sua operação e trazer ainda mais benefícios a seus clientes.

Ainda não há números precisos sobre quantas pessoas estão deixando de lado os bancos tradicionais e migrando para as Fintechs, e nem do montante de crédito já emprestado através dessas plataformas. Mas é certo que a procura por startups especializadas em serviços financeiros têm crescido em todo o mundo, à medida que os consumidores e empresas percebem que elas são alternativas mais baratas, rápidas e eficientes.

Se tudo começar a correr dessa forma, o dentista há de estar 100% à frente na próxima pesquisa de campo. E os serviços financeiros deixarão de representar dor-de-cabeça para se tornarem verdadeiros parceiros de negócio.