Fintechs: depois delas, seu mundo nunca mais será o mesmo

Talvez você nem saiba direito o que são as fintechs (startups de alta tecnologia voltadas ao segmento financeiro), mas certamente já sente os efeitos positivos que elas estão provocando no universo financeiro. A oferta de cartões de crédito e de consultoria de investimentos gratuitos são apenas a ponta do iceberg da disrupção que acontece nesse setor.

O fenômeno das fintechs não é tão recente quanto possa parecer, mas sem dúvida vem ganhando forças nos últimos poucos anos, especialmente no Brasil. Chegam com tamanha energia que, hoje, bancos, financeiras, seguradoras, empresas de pagamento e outros competidores do mercado financeiro já entenderam a importância de acompanhá-las de perto e até mesmo se associar a elas para não ficar para trás. Uma pesquisa da consultoria PwC, por exemplo, mostrou que 76% dos bancos veem as fintechs como uma ameaça a seus negócios; muitos já sofrem com a intensa migração de clientes para elas. Sem contar a perda da oportunidade de bancarizar dezenas de milhões de brasileiros desbancarizaods que estão naturalmente sendo atraídos por elas.

Evolução em escala acelerada

O Brasil tem atualmente 453 startups financeiras mapeadas, de acordo com o Radar FintechLab. Isso representa um aumento de 23% em relação a 2017 e posiciona o país como o principal ecossistema da América Latina, segundo relatório da Global FinTech Hubs Federation e da consultoria Deloitte. Nos próximos dez anos, segundo estatísticas apresentadas pelo Goldman Sachs, estima-se que elas gerarão 24 bilhões de dólares.

A oferta de serviços gratuitos é, claro, um dos grandes atrativos das Fintechs que convidam à transferência de clientes tradicionalmente bancários. Mas eles ultrapassam o aspecto financeiro: atualmente, os benefícios aprimoram-se dia após dia. O Nubank, um unicórnio brasileiro, agora oferece, além do cartão de crédito sem anuidade, conta corrente com remuneração e saque em caixas automáticos. Essas novas facilidades agradam especialmente jovens cansados de lidar com o peso dos bancos – e aqui vale lembrar uma pesquisa recente da consultoria Scratch, que identificou que sete em cada 10 jovens americanos preferem ir ao dentista a encarar uma conversa com o gerente de sua agência bancária.

Olhar voltado à necessidade do cliente

Fintechs desenvolvem produtos e serviços com o olhar voltado para o cliente. Atendendo à vocação das startups, elas são movidas pelo objetivo de solucionar um problema, enquanto o banco objetiva prioritariamente o lucro. Em outras palavras, para essas jovens empresas o desenvolvimento dos produtos reflete o que o consumidor busca, e não o que a empresa quer vender. Por isso, tanto em termos de usabilidade quanto de atendimento para dúvidas ou reclamações, as Fintechs são melhor avaliadas pelos usuários do que os bancos.

Recentemente, o Google divulgou o resultado de uma pesquisa na qual foram entrevistados 800 consumidores online de serviços financeiros (entre 16 e 20 de novembro de 2018). O objetivo era entender sua relação com as prestadoras desses serviços. Quase a metade dos usuários (46%) afirmou ainda usar instituições financeiras tradicionais como principal provedor de serviços financeiros. A diferença no nível de satisfação entre quem arrisca experimentar as Fintechs mostra-se, no momento, enorme: sete em cada 10 clientes das fintechs declaram-se satisfeitos (71%), contra quatro em cada 10 de instituições financeiras tradicionais (42%). E enquanto 19% dos entrevistados declararam-se insatisfeitos com as Fintechs, 25% reclamaram dos bancos tradicionais. Detalhe: esse número sobe para 43% quando se trata especificamente de empréstimos bancários.

Ofertas mais atraentes para o público

Fintechs são geralmente empresas enxutas, altamente produtivas e que não necessitam investir em ostentação. Fora isso oferecem, na maior parte das vezes, serviços online e não presenciais. Tudo isso diminui despesas e aumenta o alcance dessas empresas, que conseguem atuar com mais agilidade e menos custos. O resultado impacta no bolso do consumidor. Empresas de empréstimo pessoal online, como Creditas, Lendico e Geru, desenvolveram algoritmos avançados de análise de risco com os quais conseguem personalizar taxas de juros e, assim, cobrar menos de bons pagadores. Também têm a possibilidade de oferecer alguns serviços gratuitos (como cartões de crédito sem anuidade), forçando os bancos a buscar alternativa similar. Por outro lado, as plataformas de investimento online nunca cobraram tão pouco pelo apoio oferecido a quem tem recursos para investir – outro sinal da presença das Fintechs.

Acesso livre para os desbancarizados

Parece incrível, mas há hoje no Brasil cerca de 60 milhões de desbancarizados (dados do IBGE) – ou seja, pessoas que não estão inseridas no segmento bancário. Eles correspondem a quase metade da população economicamente ativa, estimada em 110 milhões de pessoas, e movimentam R$ 665 bilhões ao ano.

Isso não significa apenas a ausência de conta bancária – à qual não tem acesso por falta de comprovação de renda, na maioria dos casos –, mas também de todos os serviços que podem ser utilizados a partir deles, a começar pelo crédito. As Fintechs têm cumprido um papel importantíssimo na correção deste desvio.

Com serviços bons e mais baratos, estes clientes têm agora novas opções, que se estendem em diferentes sentidos. Micro e pequenas empresas, por exemplo, contam agora com financeiras, factorings e FDICs que oferecem serviços como empréstimos e antecipação de recebíveis pela internet ou por meio de aplicativos acessados por telefone com menores custos, menor burocracia e muito mais agilidade. A fintech WEEL, por exemplo, oferece crédito por meio de antecipação de recebíveis de forma totalmente digital. O prazo entre o cadastramento e o recebimento do valor leva no máximo um dia, na primeira operação. Nas seguintes, apenas algumas horas, bem diferente de bancos e factorings tradicionais, nos quais esse tipo de operação pode levar até uma semana para ser concluída.

Revolução sem volta: a caminho do fim da concentração bancária

A concentração bancária no Brasil é um dos mais evidentes inimigos do crescimento econômico do país que, não à toa, pratica uma das maiores taxas de juros do planeta (muito embora hajam especialistas que não apreciam ligar um fator ao outro). Segundo o Banco Central, os cinco maiores bancos brasileiros respondem por 82% de todo o mercado financeiro do País. Isso coloca o país em segundo lugar entre as nações, perdendo apenas para a Holanda, com concentração de 89%.

Essa não é uma batalha fácil e, segundo o empresário colombiano David Vélez, criador do Nubank, serão necessários entre 5 e 10 anos para que a concentração bancária no Brasil comece a diminuir. De fato, é um bocado de tempo – mas quem está com pressa?